quarta-feira, 27 de julho de 2011

sábado, 23 de outubro de 2010

meus objetos


BALANÇO DE VIDA =
Olho para trás e vejo o caminho que percorri, o quanto trabalhei e me dediquei à arte. Até hoje, aos 70 anos e espero me dedicar muito mais, e embora o talento, se é que tenho, com todo esse tempo de pratica, ainda trabalho com muita dificuldade para resolver as questões de arte.
Já superei muitas fases da pintura. Sim, são muitas as fases que o artista têm que superar durante sua vida. A fase da curiosidade, a fase da auto-afirmação, a fase do domínio técnico, a fase da aprovação de seu público (parentes e amigos), a fase da vaidade e busca de aplauso, a fase de alcançar o profissionalismo, a fase das pesquisas, a fase de entrar no mercado de arte, e algumas outras fases que não me ocorrem no momento.
Quando passa tudo isso na vida de um artista, dependendo do que sobrar nessa decantação, será a qualidade que o artista terá.
Às vezes, depois de tudo isso, somando-se a fase do aprendizado, que tínhamos esquecido, não sobra nada além de uma arte medíocre.
O porquê disto? Porque existem dois tipos de reconhecimento da realização artística. Um deles, o que é mais cobrado, é o reconhecimento do público e da crítica e a afirmação no mundo da arte.
Pintar é fácil, difícil é convencer os outros que nossa pintura é boa.(esta frase é do Massimo Picchi )
O outro, é o reconhecimento próprio. Aquele que é o próprio autor e “consumidor” de sua arte. Aquele que produz arte, pesquisa, estuda, aprofunda-se, evolui, sem se preocupar em mostrar, vender ou procurar a opinião de quem quer que seja. Esse é o mais feliz, mais autêntico e o que chega a melhores resultados, porque é autêntico e espontâneo. Aqueles que vão em busca da primeira alternativa não estão preocupados com sua autenticidade e sua realização pessoal e sim com que os outros acham. Quando atingem a aprovação da crítica e do público, principalmente com sucesso financeiro, estacionam nesse patamar para que brilhe a vaidade pessoal e para não matar a galinha dos ovos de ouro.
Pois bem, depois que o artista passa por todas essas fases, aí sim ele começa a maturidade e está pronto para começar a fazer arte, ou seja, para começar a aprender a fazer arte. Isto não quer dizer que o iniciante ou durante o aprendizado, seja qual for o tempo de duração, não esteja fazendo arte. Já no início do aprendizado o aluno já está produzindo arte, uma arte correta do ponto de vista técnico, com criatividade, etc. Porém, longe de ter extraído toda a sua potencialidade, porque arte é expressão de vida e enquanto tiver vida, as expressões vão se renovando, evoluindo e se distanciando cada vez mais das expressões passadas.
Parece meio complicado, mas é aí que eu chego à conclusão de que arte é filosofia e enquanto se vive não se termina a fase de aprendizado , criação, de uma nova modalidade de expressão com total e irrestrita liberdade que só a arte permite.-.
O artista é um vaidoso por excelência. Esta ”virtude” acompanha o talento.
Todo artista precisa de público, assim como o escritor, ator, cantor, poeta, etc.
Toda forma de arte é uma forma de comunicação e expressão e a comunicação só se completa se ela for recebida.
O pintor não foge à regra. O produto da pintura é o elemento da comunicação entre o artista e o mundo, e quando essa comunicação se completa, existe o objetivo atingido com um misto de orgulho, satisfação, vaidade. Porém, muitas vezes o artista não cria para mostrar ou agradar ninguém. Cria apenas pela necessidade de se expressar pela sua linguagem (pintura).
A pintura é o tipo de expressão que não usa palavras, por isso ela é universal.
Picasso, quando pintou “Mulheres D’Avignon” não colocou uma tela no cavalete e disse: “hoje vou inventar o Cubismo!” Picasso começou a trabalhar uma idéia, sem saber o que fazia. Começou a buscar uma nova forma de expressão. Muito depois é que o resultado foi avaliado.
Mas o importante é ressaltar que no ato da criação, o artista fica num verdadeiro transe, movido por forças acima de sua vontade. E o artista nunca freia ou inibe esses impulsos. Deixa que tudo vá fluindo e explodindo como um vulcão em erupção. No final faz-se a avaliação do resultado. Quase sempre valeu a pena, às vezes não. Mas não se deve reprimir os impulsos, que no final fica ao menos a espontaneidade da expressão.
Fiz este comentário para avaliar minha postura diante da arte. Quando relembro o que fiz, sinto que tive uma manifestação honesta, espontânea, fruto de uma força interior muito forte, cujo resultado não poderia ser desprezível.
Sempre disse que faço arte por amor e por dinheiro. Portanto, o ato da criação nasce sempre lá do fundo do próprio ego tendo sempre algum tipo de impulso criativo. Às vezes espontâneo outras vezes provocado. Mas sempre é fruto da sensibilidade do artista. E essa sensibilidade, quando existe, nunca é traída. Quando olho meu acervo de quadros, sinto uma verdade expressa. Vejo que existem símbolos, signos, mensagens impregnadas de expressões por vezes densas até demais. E essa verdade eu tenho certeza que permanecerá. Talvez eu continue sempre no anonimato, mas meus trabalhos continuarão vivendo o meu “eu superior”.
Quem sabe algum cidadão, também anônimo, em algum futuro, vai se identificar com algum de meus trabalhos. E esse cidadão anônimo estará mandando uma vibração positiva para onde eu estiver.
Se algum dia esse futuro chegar, é então porque eu cheguei lá!
RENOVAÇÃO DOS CRÍTICOS DE ARTE =




Qualquer observador atento faz uma constatação interessante sobre o meio artístico.
É a renovação constante dos verdadeiros donos da situação que eu chamo de classe dominante, constituída pelos críticos de arte, marchands, donos de galerias, historiadores, e acrescentaria ainda mais uma “ocupação” no mínimo curiosa, introduzida no meio artístico recentemente, que é a figura do curador.
Em São Paulo, na década de 1960, quando havia um mercado incipiente e o movimento de arte se concentrava mais nos Salões Oficiais de Arte, umas poucas galerias atendiam a elite paulistana. As principais eram a Cosme Velho na Alameda Lorena, a Documenta na Rua Padre João Manoel , a Galeria André que ficava na Av. Vieira de Carvalho vendendo muitos quadros de casarios de Ouro Preto espatulados por Durval Pereira , e outros tantos de igual conceito.-
Já nessa época, media-se a força de um crítico de arte pelo espaço e importância de seu meio de comunicação, assim, a dinâmica era diretamente proporcional.
Se o critico era membro do Conselho da Bienal, ou fazia parte da direção de Museus (MAM e MAC), se escrevia no “Estadão’ ou na “Folha”, esse critico tinha muito peso de decisão e influência. Pois eram eles que formavam o corpo de jurados dos eventos de arte e Bienais, escolhendo e premiando os artistas. E assim um artista premiado em um importante evento representava um passaporte para a fama e imortalidade. Principalmente naquela época em que o universo de artistas era bem reduzido. Foi assim que surgiram quase todos os pretensos gênios da pintura do momento atual da arte brasileira. Era esse o esquema da indústria da arte, uma espécie de clube fechado, que dependia do aval de toda classe dominante que com isso nos impuseram arte/artistas que eram verdadeiros lixo.- compradas pelos museus a peso de ouro. Assim , por muitos e muitos anos, amem, só se falou em Ligia Clark e Helio Oiticica como se fossem os únicos e verdadeiros representantes da arte contemporânea brasileira.-
Uma prova incontestável desse mecanismo viciado ocorreu em 1951, quando Ciccillo Matarazzo organizou a primeira Bienal, onde por incrível coincidência, funcionários de suas fabricas que pintavam letreiros e peças de propaganda de suas industrias, foram aceitos e premiados. .-
A comprovação do corporativismo no meio artístico sempre foi escandalosa e imoral, como daremos outros exemplos adiante. O ingresso em uma Bienal Internacional e ainda mais sendo premiado, em uma época em que praticamente não havia artista moderno no Brasil, (porque se considerarmos a Semana de Arte de 1922, a arte moderna no Brasil na época da primeira Bienal em 1951 tinha 29 anos. Esse intervalo em termos de historia é muito pouco tempo para se formar grandes talentos ).
Esse acesso, ainda mais na primeira Bienal Internacional no Brasil quando só havia outra, a de Veneza, significava um passaporte para a fama, com os trabalhos adquiridos por museus, seguidos pelos colecionadores e tudo mais o que se sabe.
Estes fatos não sou eu que afirmo, apenas estou intermediando as informações publicadas no Jornal Folha de São Paulo, por ocasião da comemoração dos 50 anos da Fundação Bienal. Aliás, quem quiser consultar o caderno especial, publicado para essa comemoração, ficará conhecendo mais detalhes curiosos dos bastidores ocultos da realidade de superfície.
Assim o casamento entre o crítico e o marchand era perfeito para promover pintores de acordo com os interesses da galeria ou de alguém.
Se um crítico não estivesse dentro de determinado esquema, usava seu poder de comunicação como formador de opinião para desarticular certos interesses.
Muitas vezes os leiloeiros eram obrigados a colocar obras de determinados artistas plásticos na capa dos catálogos e fazer vendas fictícias e altas cifras para elevar a cotação de certos pintores, o que seria amplamente divulgado em toda mídia no dia seguinte.
Outro fato que mostra a truculência da classe dominante (críticos, diretores de museus, etc.) e do qual eu fui a vitima, se refere a um evento de arte contemporânea, na década de 1970, onde me inscrevi. Quando fui levar os trabalhos, um determinado boçal, ao ver minhas pesquisas recentes e inovadoras, disse em tom ameaçador que se eu não dissesse que técnica era aquela e como tinha feito, ele não aceitaria. Retruquei argumentando que a técnica é uma pesquisa
, um segredo do autor e ninguém necessita revelar as suas descobertas. Provei que, pelo conteúdo e pelo conceito, os trabalhos estariam dentro das exigências do evento. Ele insistiu em que, se não revelasse a técnica, ele não aceitaria. Na época, na força, no impulso e arroubo de minha juventude, não ouso repetir aqui o que ele ouviu. E este apostolo da truculência continua até hoje ditando normas e regras como verdadeiro dignitário do sistema vigente.
Vejam bem, em qualquer pais de primeiro mundo, eu teria um patrocinador para desenvolver minhas pesquisas que eram renovadoras e importantes para o momento no campo da gravura, no entanto, voltei para casa frustrado e abandonei a pesquisa que nunca mais retomei. Contra a força não há resistência e é isso que acontece quando dão espaço e força , através do corporativismo existente, dando poder a um individuo incompetente, preconceituoso, apadrinhando seus pupilos, acostumado ao sistema viciado.-
E de onde vem esse corporativismo? Muitas vezes vem dos poderes constituídos, ou seja,a Prefeitura, o Estado e o Governo Federal. Muda o Secretario da Cultura e os cargos importantes da ponta da pirâmide começam a ser remanejados em uma disputa acirrada.
Uma outra grande prova da renovação e mudança das normas vigentes aconteceu por volta de 1980 quando mudou o Conselho da Bienal e com essa mudança foi extinta a forma democrática de todo e qualquer artista participar das Bienais, sendo submetido por um Júri de seleção e premiação. Muito bem, a partir daí era o Conselho da Bienal, que nomeava uma comissão, a seu critério, que escolheria quem iria representar o Brasil na Bienal.
Pergunto: como o Conselho da Bienal tem condições de saber da existência de grandes artistas nessa imensidão territorial que é o Brasil? Considere-se ainda da extinção dos grandes Salões Oficiais que serviam de amostragem de novos talentos.
Pois bem, a partir dai o sistema ficou viciado de tal maneira que, entra ano e sai ano, são sempre os mesmos apadrinhados que representam nossa arte, como se não tivesse surgido grandes novos nomes das Artes Plásticas.
Nesse caso, não seria exagero dizer que é a raposa tomando conta do galinheiro. Nessas condições, quem não é amigo de alguém importante nas artes, quem não é puxa-saco de crítico ou diretor de museu, quem não faz parte desse mundo corporativo e tem pretensões de ser artista, vai enfrentar uma luta desleal; não para evoluir sua arte, mas para vencer esse mundo corporativo.
A classe dos artistas sempre foi muito desunida pelo vedetismo imposto pela própria arte.
Creio ser oportuno um movimento que sacudisse as bases dos poderes constituídos para mudar os critérios de participação, seleção e premiação voltando nos moldes anteriores a 1980, onde todo artista, de qualquer parte do Brasil tivesse condições de participar, mostrar seu trabalho (se fosse aceito ou não essa seria outra historia). Como também deveriam organizar outros salões oficiais e que não fossem estabelecidos e dirigidos por essas raposas que estão por aí, mas sim por diretores e professores de escolas que tem competência e gabarito para tal empenho. Só depende de vontade política.
Haveria muito mais interesse pelos estudantes das Faculdades e Escolas de Arte que teriam um objetivo de trabalho e uma meta a alcançar.


Da década de 60 até mais ou menos até hoje, muitos críticos se sucederam no comando das diretrizes da arte. Foram eles, salvo a omissão de alguns e independente da ordem cronológica em que atuaram: Sergio Milliet, Clarival do Prado Valadares, Antonio Bento, Mario Schemberg, Roberto Pontual, Decio Pignatari, Murilo Mendes, Walmir Ayala, José Bento,Olívio Tavares de Araujo, Aracy Amaral, Geraldo Ferraz, Paulo Mendes de Almeida, José Geraldo de Vieira, Paolo Maranca, José Roberto Teixeira Leite , Olney Kruse, ,Luiz Ernesto Kawall, Ivo Zaninni, Carlos von Schmidt, Jacob Klintowitz, Alberto Beuttemuller,Enock Sacramento, Paulo Herkenhoff, Mario Pedrosa e muitos outros que não me lembro ou não conheci. Estes atuavam mais na área de São Paulo. Existiam outros críticos importantes que atuavam mais no Rio e em outros grandes centros. Nessa época a globalização ainda estava engatinhando.
Todos estes críticos tiveram uma atuação muito marcante .
Existem dois críticos que deixei por último por serem verdadeiros baluartes da pintura e contra todo tipo de mistificação, são eles Ferreira Gullar e Afonso Romano de Santana.
Alguns sumiram da critica outros permaneceram de maneira muito insignificante, outros ainda assumiram a identidade de curadores.-.
Existia também a AIAP (Associação Internacional dos Artistas Plásticos) da qual participei de sua diretoria por volta de 1975 e cuja presidente era Lucila Mezzotero.
Temos que lembrar também da Associação dos Críticos de Arte; ocorre que todas essas associações só existiam no papel mas não tinham nenhuma influência , eram uma presença decorativa e serviam apenas para cobrar a mensalidade de seus associados
Pois bem, à medida que ia mudando a política, inflação, recessão, governos, ia mudando o perfil do brasileiro e a grande massa popular, aquela que fica achatada em épocas de crise, foi perdendo o interesse pela arte , por seu mercado, seus leilões, exposições, noticias, a mídia foi restringindo seu espaço e os críticos perdendo seus empregos.
De 2 a 3 leilões de arte por semana passou-se a ver nenhum leilão de arte por mês em SP.
Os profissionais do setor começaram a procurar outras maneiras de ganhar dinheiro com arte.
Galerias começaram a inventar exposições coletivas de formandos em arte, outras inventaram consórcio de arte, outras publicavam revistas onde o iniciante em arte pagava para aparecer na revista com o preço proporcional ao espaço. Era a glória para quem estava começando. E assim apareceram muitos malabarismos comerciais.
Quanto aos críticos, inventaram a curiosa ocupação de curador.
Atualmente pouco acompanho os comentários de arte por ver tanta nulidade e textos sem nenhum significado. Outros, apadrinhados ou não, enquanto têm espaço vão produzindo as anarquias para indignação da platéia, atuando como críticos ou curadores transformando-se em verdadeiros ditadores da opinião alheia. São verdadeiros trogloditas da Arte onde a esperança é almejar a próxima renovação em que veremos estas “sumidades” de binóculo .
É com alegria que vejo um “Dom Quixote” chamado Luciano Trigo publicar seu livro “ A Grande Feira” que é um momento de verdadeira lucidez nesse meio conturbado, e aí vemos que nem tudo está perdido e ainda há esperança.-
Nosso interesse é apenas comentar a rotatividade dos críticos e galerias; e ao que parece, nenhum deles permanece fixo em um espaço na mídia.
Nos aproximadamente vinte e cinco anos (1965/1990) de força no meio artístico, em que havia muita agitação, tais como exposições internacionais, eventos de arte, exposições, leilões, palestras e cursos, havia um espaço de destaque em toda mídia (rádio, TV e principalmente jornais). Os jornais mantinham um caderno somente para as Artes Plásticas. Era uma área que tinha penetração junto ao público, onde se faziam crônicas, criticas, calendário das galerias, leilões, cotação de quadros, notícias, resultado de leilões etc.; tudo isso era oferecido ao público diariamente e esses espaços eram disputados acirradamente pelos críticos porque dava poder de barganha e chantagem.
Barganha porque o crítico seduzia o iniciante em Arte em fazer uma apresentação no catálogo de sua exposição e essa apresentação seria publicada no jornal de domingo (diga-se de passagem , a peso de muito ouro). Qual o iniciante que resistia a uma tentação dessas? E a crônica vinha recheada de nulidades, que se espremessem, não sairia nada e mais parecia um ensaio niilista.
A chantagem vinha por parte da comunhão entre as partes. Se a galeria promovia os pintores de interesse do crítico, esta galeria seria muito bem citada na mídia. Senão... a recíproca não seria verdadeira.Sem contar as colunas sociais que diariamente traziam a figura de algum industrial ou banqueiro ao lado do quadro que tinha arrematado no dia anterior.
Alguns fatores contribuíram para o fim desse esquema: governo Collor , mudança de foco na economia, mudança de costumes, onde a arte foi colocada em plano secundário com o advento das faculdades que inflacionaram o meio com um chorrilho de artistas medíocres e por fim a queda da Bolsa de Valores.
Com todos esses fatores negativos veio a perda de interesse, seguido da perda de espaço na mídia. Com isso os críticos perderam o emprego.Hoje, infelizmente, não existe mais esse espaço nos jornais e os críticos se resumiram a artigos de fundo, esporádicos, em jornais e revistas ou a apresentação de algum iniciante. Com isso, esse meio ficou desinformado e carente.Salões Oficiais praticamente desapareceram e perderam o crédito. Galerias não promovem exposições de novos artistas porque se tornaram eventos muito caros e os bons leilões também desapareceram junto com o publico.
O mundo é muito dinâmico e temos que ter consciência na arte, de que estamos em uma transição imposta pelo advento da internet. O computador mudou o mundo assim como a revolução industrial mudou a mentalidade em meados do Sec. XIX interferindo em todos os valores do individuo quer fossem de ordem moral, ética e religiosa, rompendo antigas tradições e assumindo uma nova postura, mais prática, arejada e higiênica- O mundo não era o mesmo depois da revolução industrial assim como não é o mesmo depois do computador. A arte tem a função de registrar todos os fatos da humanidade, quer sejam eles bons ou maus, bonitos ou feios. A principal função de um critico de arte seria funcionar como historiador, organizando, nominando e equacionando todos esses fatos registrados pelos artistas e esclarecendo o público .-.
Speltri - revisto em 13-02-2010 – ()RENOVAÇÃO DOS CRÍTICOS DE ARTE =




Qualquer observador atento faz uma constatação interessante sobre o meio artístico.
É a renovação constante dos verdadeiros donos da situação que eu chamo de classe dominante, constituída pelos críticos de arte, marchands, donos de galerias, historiadores, e acrescentaria ainda mais uma “ocupação” no mínimo curiosa, introduzida no meio artístico recentemente, que é a figura do curador.
Em São Paulo, na década de 1960, quando havia um mercado incipiente e o movimento de arte se concentrava mais nos Salões Oficiais de Arte, umas poucas galerias atendiam a elite paulistana. As principais eram a Cosme Velho na Alameda Lorena, a Documenta na Rua Padre João Manoel , a Galeria André que ficava na Av. Vieira de Carvalho vendendo muitos quadros de casarios de Ouro Preto espatulados por Durval Pereira , e outros tantos de igual conceito.-
Já nessa época, media-se a força de um crítico de arte pelo espaço e importância de seu meio de comunicação, assim, a dinâmica era diretamente proporcional.
Se o critico era membro do Conselho da Bienal, ou fazia parte da direção de Museus (MAM e MAC), se escrevia no “Estadão’ ou na “Folha”, esse critico tinha muito peso de decisão e influência. Pois eram eles que formavam o corpo de jurados dos eventos de arte e Bienais, escolhendo e premiando os artistas. E assim um artista premiado em um importante evento representava um passaporte para a fama e imortalidade. Principalmente naquela época em que o universo de artistas era bem reduzido. Foi assim que surgiram quase todos os pretensos gênios da pintura do momento atual da arte brasileira. Era esse o esquema da indústria da arte, uma espécie de clube fechado, que dependia do aval de toda classe dominante que com isso nos impuseram arte/artistas que eram verdadeiros lixo.- compradas pelos museus a peso de ouro. Assim , por muitos e muitos anos, amem, só se falou em Ligia Clark e Helio Oiticica como se fossem os únicos e verdadeiros representantes da arte contemporânea brasileira.-
Uma prova incontestável desse mecanismo viciado ocorreu em 1951, quando Ciccillo Matarazzo organizou a primeira Bienal, onde por incrível coincidência, funcionários de suas fabricas que pintavam letreiros e peças de propaganda de suas industrias, foram aceitos e premiados. .-
A comprovação do corporativismo no meio artístico sempre foi escandalosa e imoral, como daremos outros exemplos adiante. O ingresso em uma Bienal Internacional e ainda mais sendo premiado, em uma época em que praticamente não havia artista moderno no Brasil, (porque se considerarmos a Semana de Arte de 1922, a arte moderna no Brasil na época da primeira Bienal em 1951 tinha 29 anos. Esse intervalo em termos de historia é muito pouco tempo para se formar grandes talentos ).
Esse acesso, ainda mais na primeira Bienal Internacional no Brasil quando só havia outra, a de Veneza, significava um passaporte para a fama, com os trabalhos adquiridos por museus, seguidos pelos colecionadores e tudo mais o que se sabe.
Estes fatos não sou eu que afirmo, apenas estou intermediando as informações publicadas no Jornal Folha de São Paulo, por ocasião da comemoração dos 50 anos da Fundação Bienal. Aliás, quem quiser consultar o caderno especial, publicado para essa comemoração, ficará conhecendo mais detalhes curiosos dos bastidores ocultos da realidade de superfície.
Assim o casamento entre o crítico e o marchand era perfeito para promover pintores de acordo com os interesses da galeria ou de alguém.
Se um crítico não estivesse dentro de determinado esquema, usava seu poder de comunicação como formador de opinião para desarticular certos interesses.
Muitas vezes os leiloeiros eram obrigados a colocar obras de determinados artistas plásticos na capa dos catálogos e fazer vendas fictícias e altas cifras para elevar a cotação de certos pintores, o que seria amplamente divulgado em toda mídia no dia seguinte.
Outro fato que mostra a truculência da classe dominante (críticos, diretores de museus, etc.) e do qual eu fui a vitima, se refere a um evento de arte contemporânea, na década de 1970, onde me inscrevi. Quando fui levar os trabalhos, um determinado boçal, ao ver minhas pesquisas recentes e inovadoras, disse em tom ameaçador que se eu não dissesse que técnica era aquela e como tinha feito, ele não aceitaria. Retruquei argumentando que a técnica é uma pesquisa
, um segredo do autor e ninguém necessita revelar as suas descobertas. Provei que, pelo conteúdo e pelo conceito, os trabalhos estariam dentro das exigências do evento. Ele insistiu em que, se não revelasse a técnica, ele não aceitaria. Na época, na força, no impulso e arroubo de minha juventude, não ouso repetir aqui o que ele ouviu. E este apostolo da truculência continua até hoje ditando normas e regras como verdadeiro dignitário do sistema vigente.
Vejam bem, em qualquer pais de primeiro mundo, eu teria um patrocinador para desenvolver minhas pesquisas que eram renovadoras e importantes para o momento no campo da gravura, no entanto, voltei para casa frustrado e abandonei a pesquisa que nunca mais retomei. Contra a força não há resistência e é isso que acontece quando dão espaço e força , através do corporativismo existente, dando poder a um individuo incompetente, preconceituoso, apadrinhando seus pupilos, acostumado ao sistema viciado.-
E de onde vem esse corporativismo? Muitas vezes vem dos poderes constituídos, ou seja,a Prefeitura, o Estado e o Governo Federal. Muda o Secretario da Cultura e os cargos importantes da ponta da pirâmide começam a ser remanejados em uma disputa acirrada.
Uma outra grande prova da renovação e mudança das normas vigentes aconteceu por volta de 1980 quando mudou o Conselho da Bienal e com essa mudança foi extinta a forma democrática de todo e qualquer artista participar das Bienais, sendo submetido por um Júri de seleção e premiação. Muito bem, a partir daí era o Conselho da Bienal, que nomeava uma comissão, a seu critério, que escolheria quem iria representar o Brasil na Bienal.
Pergunto: como o Conselho da Bienal tem condições de saber da existência de grandes artistas nessa imensidão territorial que é o Brasil? Considere-se ainda da extinção dos grandes Salões Oficiais que serviam de amostragem de novos talentos.
Pois bem, a partir dai o sistema ficou viciado de tal maneira que, entra ano e sai ano, são sempre os mesmos apadrinhados que representam nossa arte, como se não tivesse surgido grandes novos nomes das Artes Plásticas.
Nesse caso, não seria exagero dizer que é a raposa tomando conta do galinheiro. Nessas condições, quem não é amigo de alguém importante nas artes, quem não é puxa-saco de crítico ou diretor de museu, quem não faz parte desse mundo corporativo e tem pretensões de ser artista, vai enfrentar uma luta desleal; não para evoluir sua arte, mas para vencer esse mundo corporativo.
A classe dos artistas sempre foi muito desunida pelo vedetismo imposto pela própria arte.
Creio ser oportuno um movimento que sacudisse as bases dos poderes constituídos para mudar os critérios de participação, seleção e premiação voltando nos moldes anteriores a 1980, onde todo artista, de qualquer parte do Brasil tivesse condições de participar, mostrar seu trabalho (se fosse aceito ou não essa seria outra historia). Como também deveriam organizar outros salões oficiais e que não fossem estabelecidos e dirigidos por essas raposas que estão por aí, mas sim por diretores e professores de escolas que tem competência e gabarito para tal empenho. Só depende de vontade política.
Haveria muito mais interesse pelos estudantes das Faculdades e Escolas de Arte que teriam um objetivo de trabalho e uma meta a alcançar.


Da década de 60 até mais ou menos até hoje, muitos críticos se sucederam no comando das diretrizes da arte. Foram eles, salvo a omissão de alguns e independente da ordem cronológica em que atuaram: Sergio Milliet, Clarival do Prado Valadares, Antonio Bento, Mario Schemberg, Roberto Pontual, Decio Pignatari, Murilo Mendes, Walmir Ayala, José Bento,Olívio Tavares de Araujo, Aracy Amaral, Geraldo Ferraz, Paulo Mendes de Almeida, José Geraldo de Vieira, Paolo Maranca, José Roberto Teixeira Leite , Olney Kruse, ,Luiz Ernesto Kawall, Ivo Zaninni, Carlos von Schmidt, Jacob Klintowitz, Alberto Beuttemuller,Enock Sacramento, Paulo Herkenhoff, Mario Pedrosa e muitos outros que não me lembro ou não conheci. Estes atuavam mais na área de São Paulo. Existiam outros críticos importantes que atuavam mais no Rio e em outros grandes centros. Nessa época a globalização ainda estava engatinhando.
Todos estes críticos tiveram uma atuação muito marcante .
Existem dois críticos que deixei por último por serem verdadeiros baluartes da pintura e contra todo tipo de mistificação, são eles Ferreira Gullar e Afonso Romano de Santana.
Alguns sumiram da critica outros permaneceram de maneira muito insignificante, outros ainda assumiram a identidade de curadores.-.
Existia também a AIAP (Associação Internacional dos Artistas Plásticos) da qual participei de sua diretoria por volta de 1975 e cuja presidente era Lucila Mezzotero.
Temos que lembrar também da Associação dos Críticos de Arte; ocorre que todas essas associações só existiam no papel mas não tinham nenhuma influência , eram uma presença decorativa e serviam apenas para cobrar a mensalidade de seus associados
Pois bem, à medida que ia mudando a política, inflação, recessão, governos, ia mudando o perfil do brasileiro e a grande massa popular, aquela que fica achatada em épocas de crise, foi perdendo o interesse pela arte , por seu mercado, seus leilões, exposições, noticias, a mídia foi restringindo seu espaço e os críticos perdendo seus empregos.
De 2 a 3 leilões de arte por semana passou-se a ver nenhum leilão de arte por mês em SP.
Os profissionais do setor começaram a procurar outras maneiras de ganhar dinheiro com arte.
Galerias começaram a inventar exposições coletivas de formandos em arte, outras inventaram consórcio de arte, outras publicavam revistas onde o iniciante em arte pagava para aparecer na revista com o preço proporcional ao espaço. Era a glória para quem estava começando. E assim apareceram muitos malabarismos comerciais.
Quanto aos críticos, inventaram a curiosa ocupação de curador.
Atualmente pouco acompanho os comentários de arte por ver tanta nulidade e textos sem nenhum significado. Outros, apadrinhados ou não, enquanto têm espaço vão produzindo as anarquias para indignação da platéia, atuando como críticos ou curadores transformando-se em verdadeiros ditadores da opinião alheia. São verdadeiros trogloditas da Arte onde a esperança é almejar a próxima renovação em que veremos estas “sumidades” de binóculo .
É com alegria que vejo um “Dom Quixote” chamado Luciano Trigo publicar seu livro “ A Grande Feira” que é um momento de verdadeira lucidez nesse meio conturbado, e aí vemos que nem tudo está perdido e ainda há esperança.-
Nosso interesse é apenas comentar a rotatividade dos críticos e galerias; e ao que parece, nenhum deles permanece fixo em um espaço na mídia.
Nos aproximadamente vinte e cinco anos (1965/1990) de força no meio artístico, em que havia muita agitação, tais como exposições internacionais, eventos de arte, exposições, leilões, palestras e cursos, havia um espaço de destaque em toda mídia (rádio, TV e principalmente jornais). Os jornais mantinham um caderno somente para as Artes Plásticas. Era uma área que tinha penetração junto ao público, onde se faziam crônicas, criticas, calendário das galerias, leilões, cotação de quadros, notícias, resultado de leilões etc.; tudo isso era oferecido ao público diariamente e esses espaços eram disputados acirradamente pelos críticos porque dava poder de barganha e chantagem.
Barganha porque o crítico seduzia o iniciante em Arte em fazer uma apresentação no catálogo de sua exposição e essa apresentação seria publicada no jornal de domingo (diga-se de passagem , a peso de muito ouro). Qual o iniciante que resistia a uma tentação dessas? E a crônica vinha recheada de nulidades, que se espremessem, não sairia nada e mais parecia um ensaio niilista.
A chantagem vinha por parte da comunhão entre as partes. Se a galeria promovia os pintores de interesse do crítico, esta galeria seria muito bem citada na mídia. Senão... a recíproca não seria verdadeira.Sem contar as colunas sociais que diariamente traziam a figura de algum industrial ou banqueiro ao lado do quadro que tinha arrematado no dia anterior.
Alguns fatores contribuíram para o fim desse esquema: governo Collor , mudança de foco na economia, mudança de costumes, onde a arte foi colocada em plano secundário com o advento das faculdades que inflacionaram o meio com um chorrilho de artistas medíocres e por fim a queda da Bolsa de Valores.
Com todos esses fatores negativos veio a perda de interesse, seguido da perda de espaço na mídia. Com isso os críticos perderam o emprego.Hoje, infelizmente, não existe mais esse espaço nos jornais e os críticos se resumiram a artigos de fundo, esporádicos, em jornais e revistas ou a apresentação de algum iniciante. Com isso, esse meio ficou desinformado e carente.Salões Oficiais praticamente desapareceram e perderam o crédito. Galerias não promovem exposições de novos artistas porque se tornaram eventos muito caros e os bons leilões também desapareceram junto com o publico.
O mundo é muito dinâmico e temos que ter consciência na arte, de que estamos em uma transição imposta pelo advento da internet. O computador mudou o mundo assim como a revolução industrial mudou a mentalidade em meados do Sec. XIX interferindo em todos os valores do individuo quer fossem de ordem moral, ética e religiosa, rompendo antigas tradições e assumindo uma nova postura, mais prática, arejada e higiênica- O mundo não era o mesmo depois da revolução industrial assim como não é o mesmo depois do computador. A arte tem a função de registrar todos os fatos da humanidade, quer sejam eles bons ou maus, bonitos ou feios. A principal função de um critico de arte seria funcionar como historiador, organizando, nominando e equacionando todos esses fatos registrados pelos artistas e esclarecendo o público .-.
Speltri - revisto em 13-02-2010 – ()
O MERCADO DE ARTE – O SURGIMENTO DOS LEILÕES =


Na década de 1960 não havia mercado de arte.- Desde que por mercado se entenda oferta de compra e venda.- -Existia somente galerias que vendiam quadros, mas não compravam.- Tinham um acervo em consignação ou de colecionadores ou dos próprios pintores.- Ou seja, não tinha liquidez. Quando alguém queria vender um quadro, deixava em consignação na galeria e o galerista, erroneamente chamado de marchand, procurava um comprador.-
Faltava profissionalismo, faltava liquidez , faltava credibilidade no mercado de arte.
Como nada acontece por acaso, na década de 1960, mais para o final, 1968, precisavam de dinheiro para equipamentos do Hospital Albert Einstein e os judeus fizeram uma campanha de arrecadação de obras de arte para a realização de um grande leilão.- Era um fato inédito. Foram direto aos artistas, pintores, escultores, galerias, colecionadores, etc. e arrecadaram um grande lote de obras de arte.
Chamaram o Baccaro, galerista muito atuante na época e o contrataram para realizar um grande leilão beneficente para arrecadar fundos para o Hospital. Tanto pintores, galeristas, colecionadores colaboraram na doação de obras para compor o acervo a ser leiloado.
Houve uma grande afluência da colônia judaica, colecionadores e publico em geral.- Nunca tinha sido feito um leilão de obras de arte, era o primeiro feito com tanta pompa e circunstancia. Inclusive havia muita curiosidade para ver como ia funcionar.-
O leilão foi realizado e foi um sucesso total e assim foi descoberto um meio de venda maciça de obras de arte em dois ou três dias.
Considerando um mercado de arte estagnado em que viviam as galerias, essa nova modalidade veio dar sangue novo, pois em uma só noite vendia-se em torno de 150 quadros.
Para contribuir com o êxito dos leilões, a Bolsa de Valores vivia uma de suas maiores altas da historia.- Começava o momento do milagre econômico brasileiro onde tínhamos inflação mas não tinha recessão.- O dinheiro circulava. E tanto a Bolsa de Valores como o mercado de arte, era o meio propicio para se “esquentar o caixa dois”
Aproveitando essa oportunidade, Jose Paulo Domingues da Silva, ou como queiram Paolo Businco, montou a Galeria Collectio que se transformou na maior empresa de compra e venda de obras de arte, cuja maior façanha foi trazer os Bancos para financiarem a transação de obras de arte, preenchendo assim uma lacuna que havia nesse setor.- Antes da Collectio quem tinha um Portinari não conseguia vender senão deixando em consignação. Com a Collectio se alguém tivesse 10 ou 20 Portinari , “o Zé Paulo” comprava a vista. Com esta atitude a Colletio trouxe credibilidade e segurança ao mercado de arte.- A partir daí a compra e venda de obras de arte passou a ter liquidez e principalmente credibilidade.-
Jose Paulo Domingues da Silva, como era conhecido, montou um esquema de financiamento de obras de arte inédito na época.- Convenceu as grandes financeiras bancassem o financiamento como antecipando empréstimos para fundo de liquidez (compra e recompra) do mercado, tendo como garantia quadros que eram avaliados por ele mesmo ( colletio).
Para aumentar o lastro de financiamento e empréstimo , José Paulo criou mecanismo de super valorização da pintura em condições artificiais.
Como os leilões eram fiscalizados por órgãos oficiais (Associação Comercial entre outras) a Colletio só vendia em leilões e o público ingênuo que não conhecia os bastidores de um leilão, acreditava nos lances “frios” e vendas fictícias que eram praticadas para valorizar rapidamente o lastro dos financiamentos.-
Um mercado precisa de mercadoria e a mercadoria no mercado de arte é a obra e o artista.- E para acrescentar ou atribuir valor tanto a obra como o artista era comum criar argumentos de toda natureza para valorizá-la.
Muito bem, a Colletio de Zé Paulo organizou um “time de pintores” exclusivos comprando e promovendo toda produção desses pintores.- Eu fazia parte dos pintores exclusivos da Colletio..
Esses leilões eram verdadeiros acontecimento social .- Na semana que antecedia o leilão havia um forte esquema de marketing e os jornais que representavam o principal meio de comunicação da época tinham duas paginas de propaganda alem de críticos de arte, coluna social, etc, estarem colaborando com a Collecio
Na época a palavra do Zé Paulo era lei.- Ninguém sabia ao certo quem era ou de onde veio.- Históricas fantásticas contavam a seu respeito mas ninguém duvidava de nada.- Ele tinha realmente o dinheiro e mandava no mercado.
Isto durou de 1969 até 1973 , até que a bola de neve virou água.
A historia do Zé Paulo ou Paolo Buzinco e da Colletio não interessa para nosso roteiro, mas quem quiser saber consulte os jornais da época.- Hoje pela internet é fácil.

.............................................................................................................................


OS BASTIDORES DO MERCADO
(complemento de certos comentários do capitulo anterior )

Por volta de 1968 teve inicio uma atividade intensa no mercado de arte e já a esta altura com a Galeria Colletio de Jose Paulo Domingues da Silva,pseudônimo de Paolo Businco, tomando a liderança .- Portanto leilões de arte era uma atividade nova, desconhecida por todos, fácil de manipular com manobras desconhecidas pelo público.-
Como faltava “mercadoria”, que no caso eram obras de arte, a Colletio tinha que valorizar os velhos pintores e descobrir os novos para ter lastro do aval e ainda ficar com a custodia dos mesmos junto as financeiras criando assim uma situação artificial de cotações e lances “frios”.- Era fácil elevar as cotações e manipular o mercado de acordo com suas necessidades.
Assim sem saber , estava matando dois coelhos com uma paulada só, Zé Paulo hiper-valorizou a cotação de todos os seus pintores , paralelo a isso, os quadros acabavam sendo vendidos satisfazendo o status dos novos ricos , tendo como pano de fundo a alta da Bolsa de Valores.-
Uma pratica que passou a ser freqüente nos leilões e o publico ignorava era (ou ainda é ) criar uma cotação fictícia para um pintor.- Por exemplo, quando era apresentado o quadro, o leiloeiro fazia um breve comentário sobre o autor e obra e em seguida começava a pegar os lances : -“ 100, 150, 200,200, 200, 250, vamos La gente, estão pagando a moldura, 300, 350, 350, 350, vou vender... vou vender... 400, 500,500, vou vender, 600 la no fundo, ninguém mais, vou vender... 650, 700, 800 aqui, parabéns, 850 obrigado, 850, 900 la no fundo, 1000, 1000, vou vender, dou-lhe uma, dou-lhe duas, 1.100, ninguém dá mais, dou-lhe uma, dou-lhe duas, vendido.-“
Tudo isto não existiu.- Foi fictício.- O quadro vale na realidade 200 reais e coloca-se dois quadros no leilão.- O primeiro é feito essa encenação e o segundo sai por 600 a 800 reais onde o comprador acha que fez um grande negocio e a galeria fatura de 200 até 500 por cento conforme o caso. ( os números são hipotéticos apenas para ilustrar o fato).
Esse artifício foi usado abusivamente no inicio.- Até eu que estava nos bastidores disso tudo era enganado. Eu nunca sabia se meu quadro tinha sido vendido ou não.- Muitas vezes o quadro não tinha comprador e para não parecer encalhe e prejudicar o pintor , o leiloeiro fazia uma venda fria , e já que o lote estava perdido, super valorizava.
O mercado de arte estava tão bem conceituado , onde circulava valores altíssimos, tanto mais porque era considerado como investimento onde toda mídia dispensava um bom espaço para a matéria.-Os jornais dedicavam cadernos inteiros só para artes plásticas onde invariavelmente era publicada a cotação dos quadros. A TV também reservava um espaço em seus noticiários dedicado as ates plásticas e suas cotações.
Voltando a Colletio, desenvolvia um trabalho serio pagando corretamente pintores, vendedores, leiloeiros.- Nada de mercadoria falsa ou negocio ilícito. Com esta atitude dava credibilidade ao mercado e ficava mais fácil “pegar” dinheiro nas financeiras , dando como garantia obras hiper valorizadas e a própria Colletio ficava com a custodia das obras que as dava novamente em garantia para outra financeira, assim ia... Era a raposa tomando conta do galinheiro.
Esse esquema exigia seriedade, não brincar em serviço,já que o dinheiro vinha fácil, das financeiras e do publico.
Com o fechamento da Colletio por motivos que não nos compete comentar agora, vieram os oportunistas de plantão.- Virou baderna. O mercado ficou acéfalo.- Sem liderança. Uma avalanche de péssima arte eram oferecidas ao publico em 3 ou 4 leilões por dia , alem da infinidade de quadros falsos que começavam a aparecer.-
Tudo isto graças a hiper-valorização provocada pela Colletio que como os preços foram inflacionados em apenas dois anos, qualquer coisa que fosse vendida por 20 ou 30% dos preços inflacionados, já estava bom demais e até acima do preço real.- E foi assim que os preços dos quadros despencaram, em que pese , outros fatores contribuíram para a quase falência do mercado de arte.
Nesse período havia inflação na economia brasileira mas não havia recessão, portanto o dinheiro circulava.- Com o governo Collor que confiscou o dinheiro do povo , iniciou um período terrível de recessão com inflação e desemprego .-Em uma época de crise o mercado de arte é o primeiro a sofrer as conseqüências e o ultimo a se recuperar- O que estamos esperando até hoje (2.010).-